GRANDIOSA CORRIDA MISTA
22/06/2026
Crónica da corrida por Miguel Ortega
Fotografia – Tertúlia Tauromáquica Terceirense
Quando Angra se rendeu a João Pamplona
O cavaleiro açoriano rubricou a obra maior da segunda corrida das Sanjoaninas, numa tarde de bravura, emoção e afirmação taurina na Monumental da Ilha Terceira
“Háblame del mar, marinero…”
Os versos de Rafael Alberti encontram em Angra do Heroísmo um cenário perfeito. Aqui, o mar envolve a cidade, abraça a praça e confunde-se com a própria alma da festa. Nas Sanjoaninas, a tauromaquia é património vivo, expressão maior de uma identidade atlântica onde o toiro bravo continua a ocupar um lugar central. Tudo se vive com intensidade: a espera, o triunfo, a emoção e a memória.
Como os toiros. Como o oceano. Como as Sanjoaninas.
A segunda corrida da Feira de São João apresentou um cartel rematado por argumentos de interesse e proporcionou uma tarde de agradável conteúdo artístico e ganadeiro. Entre momentos de brilho, destacou-se o triunfo incontestável de João Pamplona, a personalidade invulgar de Marco Pérez, a verdade dos forcados em praça e um curro de comportamento variado, onde não faltaram exemplares de nota alta.
João Moura Jr regressava à arena angrense para cumprir a sua segunda atuação nesta emblemática feira taurina. Diante do primeiro da sua ordem, um exemplar de José Albino Fernandes que não definiu de início o seu comportamento, o cavaleiro mostrou leitura, conhecimento dos terrenos e capacidade para mandar na lide desde os primeiros compridos. A partir daí construiu uma atuação de mérito, variada nos cites e nos terrenos, procurando explorar as virtudes de um exemplar que exigia inteligência e ofício.
No seu segundo turno encontrou um toiro de João Gaspar de bonito trapio, mãos baixas e expressão muito do agrado dos aficionados. Nobre na investida e pronto a acudir aos cites, permitiu momentos de emoção, ainda que sem apresentar total regularidade nas arrancadas. O momento mais vibrante da atuação surgiu logo de saída, com uma porta-gaiola de grande exposição, seguida de um comprido de enorme impacto, reunido com verdade e emoção. A lide prosseguiu com interesse, embora alguns encontros não alcançassem o grau de reunião e perfeição que o cavaleiro procura e a que habituou as bancadas. Ficou, contudo, bem patente a sua entrega e permanente exigência artística.
Mas a tarde tinha reservado o protagonismo maior para João Pamplona.
Frente a dois toiros de boas condições, um de João Gaspar e outro da Casa Agrícola José Albino Fernandes, o jovem cavaleiro açoriano assinou a atuação mais redonda do festejo. Especialmente diante do quinto da tarde, encontrou matéria-prima para construir uma lide de crescente emoção, onde sobressaíram o ajuste, a reunião, a verdade dos cites e uma notável ligação às bancadas.
Os ferros sucederam-se com acerto, cadência e impacto, numa atuação plena de maturidade e personalidade. O público reconheceu-lhe a dimensão da obra e premiou-o com duas voltas à arena sob forte ovação, coroando aquele que foi, sem margem para discussão, o triunfador da corrida.
Contudo, mais do que os triunfos alcançados, João Pamplona continua a distinguir-se pela forma como vive a profissão. Humilde, dedicado e profundamente comprometido com a arte de Marialva, demonstra em cada atuação uma vontade permanente de crescer e de honrar o toureio a cavalo.
E ontem Angra rendeu-se por completo.
A componente a pé esteve entregue a Marco Pérez, fenómeno precoce do toureio mundial, que fazia a sua apresentação perante a exigente afición terceirense.
Perante dois exemplares de José Albino Fernandes, distintos na pelagem mas semelhantes na nobreza e nas limitações de força, o jovem espanhol deixou mostras inequívocas da dimensão do seu conceito.
No primeiro, recebido com elegantes verónicas a pé juntos, construiu uma faena de recursos e conhecimento, procurando sempre levar o toiro cosido à muleta e administrando com inteligência as exigências do adversário. As limitações do astado impediram maiores voos e reduziram a transmissão da obra aos tendidos.
Mas perante o sexto da tarde surgiu o melhor Marco Pérez.
O vistoso toiro flavo permitiu-lhe desenhar momentos de enorme qualidade, em tandas templadas, ligadas e conduzidas com suavidade e mando. Houve profundidade, ajuste e uma compreensão notável das distâncias e dos tempos da lide. Mais do que executar os passes, Marco Pérez parece antecipá-los, vivendo o toureio primeiro na mente para depois o materializar na arena.
Os desplantes, a quietude e a proximidade incendiaram as bancadas, culminando em duas calorosas voltas à arena que reconheceram uma atuação de forte conteúdo artístico e enorme projeção de futuro.
Nas pegas, os grupos da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e dos Amadores de Turlock cumpriram com verdade e entrega.
João Bettencourt consumou à segunda tentativa uma pega de raça e coração, nunca desistindo perante as dificuldades colocadas pelo toiro. Já Tomás Costa resolveu ao terceiro intento uma intervenção de mérito, onde a persistência do forcado da cara e a coesão do grupo foram decisivas para o desfecho feliz.
Pelos Amadores de Turlock, Fábio Vieira rubricou uma excelente pega à primeira tentativa, reunindo com decisão, técnica e correção. Bryce Rocha encerrou a prestação californiana ao segundo intento, demonstrando serenidade, conhecimento e um apreciável sentido das distâncias. No conjunto, os forcados da cara estiveram em plano elevado, honrando as jaquetas que envergavam e contribuindo para o êxito do espetáculo.
No capítulo ganadeiro, o curro revelou comportamento diverso, proporcionando diferentes graus de emoção e possibilidades aos intérpretes.
“Jamanto”, de José Albino Fernandes, abriu a corrida com mobilidade e suficiente prontidão para acudir aos cites, permitindo que a lide decorresse com ritmo e interesse. Não sendo um toiro de grandes excessos de bravura, cumpriu com dignidade, deixando ver alguma transmissão e colaborando com os intérpretes, ainda que sem terminar de romper como os melhores exemplares da tarde.
“Visionário”, de João Gaspar, foi o exemplar mais completo da corrida. Bem apresentado, bravo, com recorrido e investida crescente, foi sempre a mais ao longo da lide, evidenciando classe e emoção. Uma autêntica estampa de toiro bravo que justificou plenamente os elogios da afición e se afirmou como um dos triunfadores da tarde.
“Portolero” acusou menor presença e evidentes limitações de força, fatores que condicionaram a sua transmissão e impediram que a lide atingisse maior relevância, apesar da nobreza que deixou entrever.
O sobrero “Ambicioso”, de João Gaspar, que substituiu o quarto inicialmente anunciado, saiu com sonoridade e despertou expectativas, mas foi perdendo intensidade ao longo da lide, revelando marcada querência para os médios, circunstância que dificultou o labor dos intervenientes.
“Luceno”, quinto da ordem e pertencente à Casa Agrícola José Albino Fernandes, protagonizou uma das exibições ganadeiras mais importantes da corrida. Bravo, colaborador e com emoção, permitiu a João Pamplona construir a lide triunfal da tarde, sendo justamente um dos grandes vencedores do festejo.
Fechou praça o flavo “Carretono”, um toiro de excelente expressão, nobreza e qualidade na investida. A escassez de força impediu-o de alcançar outra dimensão, mas permitiu ainda assim momentos de grande beleza e inspiração ao jovem Marco Pérez, que encontrou nele a matéria necessária para rubricar a sua melhor obra da tarde.
Quando a noite caiu sobre Angra, ficou a certeza de que as Sanjoaninas continuam a ser uma das mais genuínas expressões da tauromaquia portuguesa. Uma festa onde o mar e o toiro convivem lado a lado, unidos por uma mesma linguagem feita de emoção, bravura e verdade.
Como os toiros.
Como o oceano.
Como as Sanjoaninas.
GALERIA FOTOGRÁFICA






























