CORRIDA MISTA DE SÃO JOÃO

24/06/2026 
Crónica da corrida por Miguel Ortega
Fotografia – Tertúlia Tauromáquica Terceirense

Angra, onde a bravura continua a fazer História

“Quem chega à baía de Angra,
Não a esquece mais na vida;
Fica-lhe o mar nos sentidos
E a alma agradecida.”

Vitorino Nemésio

 

Há cidades que se visitam. Angra do Heroísmo vive-se.

Caminha-se pelas suas ruas de pedra basáltica, contempla-se a imponência da baía abraçada pelo Monte Brasil e sente-se, a cada passo, o peso da História e a força das tradições. Património Mundial da UNESCO, Angra é uma cidade onde o passado continua vivo e onde a cultura popular encontra uma das suas mais genuínas expressões.

E se há tradição que continua bem viva na alma terceirense, a tauromaquia ocupa um lugar de honra. Nas Sanjoaninas, a Corrida de São João é um encontro de gerações, um momento de celebração coletiva e uma afirmação da identidade de um povo.

O cartel reunia João Moura Jr., João Ribeiro Telles e o matador Fernando Adrián, frente a toiros das ganadarias João Gaspar e Rego Botelho, sendo as pegas repartidas entre a Tertúlia Tauromáquica Terceirense e o Ramo Grande.

A tarde proporcionou bom toureio a cavalo e a pé, pegas carregadas de emoção e um curro exigente. Merecem especial destaque o primeiro toiro de João Gaspar e o terceiro e quinto de Rego Botelho.

João Moura Jr., ídolo da afición terceirense, voltou a triunfar. Abriu com uma grande sorte de gaiola e um excelente segundo comprido. Aproveitou na perfeição o primeiro adversário, cravando ferros de grande nota e rematando as sortes com toreria. No quarto da corrida evidenciou toda a sua capacidade lidadora perante um toiro menos entregue, terminando com duas mourinas de enorme impacto, sendo a segunda particularmente emocionante.

João Ribeiro Telles encontrou um primeiro toiro reservado, ao qual deu a volta com inteligência e mestria. A lide cresceu nos curtos e, perante o bravo quinto, assinou uma atuação de elevado nível, cravando ao estribo e rematando as sortes com elegância. Apenas o ferro de palmo para finalizar a sua lide teimava em não ficar no morrilho do toiro. Mas este momento não desmereceu em nada a grande lide do cavaleiro da Torrinha.

Fernando Adrián encontrou um nobre exemplar de Rego Botelho, recebido por chicuelinas de bonito traço. Com a muleta pela direita desenhou séries de bom toureiro em redondo, pela esquerda houve bonitos naturais soltos. Sofreu uma aparatosa voltereta sem consequências. No sexto, menos colaborador, conseguiu ainda momentos meritórios, tanto pela direita onde um série em redondo ficou na retina de que a viu.

Antes de descrever as das pegas, fazem sentido as palavras de António Ventura, secretário regional da agricultura: «Na tourada há a dignidade, há a responsabilidade, aprende-se a trabalhar em grupo, aprende-se a cumprir as regras, há disciplina. Eu não encontro uma escola de cidadania melhor do que a tourada.» E isto foi novamente o vivido nesta tarde de toiros…

Tomás Cunha abriu com uma excelente pega à primeira tentativa. Francisco Matos viveu os momentos mais dramáticos da tarde perante um duríssimo Rego Botelho. Depois de duas tentativas e de uma violenta colhida que fez gelar a praça, Eduardo Rico saiu à dobra e resolveu a situação com uma meritória pega a sesgo.

Pelo Ramo Grande, Rui Dinis pegou à primeira tentativa. Luís Valadão lesionou-se perante o bravo quinto, sendo Gonçalo Batista chamado à dobra para consumar, também a sesgo, uma pega de grande mérito.

Quando o último aplauso ecoou nas bancadas, ficou a certeza de que Angra voltou a honrar uma das suas maiores tradições. Houve arte, bravura, emoção e verdade.

Porque, enquanto houver um toiro bravo a sair à praça, um cavaleiro disposto a citar de frente, um matador capaz de desenhar arte com a muleta e um forcado que avance de peito aberto, Angra do Heroísmo continuará a escrever algumas das mais belas páginas da tauromaquia portuguesa.

Há corridas que se aplaudem. Há outras que ficam para sempre na memória. A Corrida de São João de 2026 foi uma delas.

 

 

 

GALERIA FOTOGRÁFICA